Crônica – O almoço está servido. O cozinheiro está suando.

These Five-Star Restaurants Are Worth Every Penny | GOBankingRates

O almoço está servido. O cozinheiro está suando. Os convidados não estão nem aí para ele. Se divertem com a longa estória que está sendo contada pelo cunhado do cozinheiro, o dono da casa. O cozinheiro conhece aquela estória porque já a escutou mil vezes, e o suor na sua testa aumenta um pouco mais quando ele percebe que a estória ainda está na metade e muito longe de terminar. E ele não pode simplesmente mandar o cunhado se calar para dizer que o almoço está servido e “narrar” a sua obra prima para a platéia. Fazer a sua “entrée”. É disso que ele se alimenta, este é o seu momento.
O almoço está servido. O molho cremoso da massa que acaba de sair do forno está na consistência perfeita, nem tão líquida, nem tão grossa. O parmesão que cobre o prato estampa um gratinado dourado. E quando o cozinheiro introduz a colher na travessa, uma linda fumaça se levanta. Temperatura perfeita.
Mas a estória do cunhado não acaba. O filho da mãe é um bom contador de estórias. Já a estória do cozinheiro é aquele prato. Aquela é a sua criação. E ele está ali, olhando para a sua criação, vendo a fumaça ficar cada vez mais rala.
Maldito dia em que o cozinheiro topou cozinhar na casa do cunhado. É a primeira vez que o cunhado chama o cozinheiro para cozinhar na sua casa. O cozinheiro aceitou mais para não se indispor com a esposa, que queria se reaproximar do irmão.
O cozinheiro não gosta de cozinhar em domínios desconhecidos, em um fogão com o qual ele não tem intimidade. Cuja chama ele não sabe a altura, cujo forno ele não sabe se a temperatura interna é a mesma do marcador. São muitas  incertezas. Ele não sabe se haverá “bowls” suficientes para guardar a sua “mise en place”, se haverá tábuas para picar e temperar, panelas grossas  que retém a temperatura, facas grande e afiadas para o corte, colheres grandes para servir os pratos. A maioria das casas não tem um simples “fouet”. Como esperam que ele bata um creme ou engrosse um Bechamel?
Sim, o almoço está servido. E o cozinheiro está suando. O sorriso que ele ostenta na cara neste momento, é falso. Sua esposa é a única que percebe sua agonia e leva para ele 2 folhas de toalha de papel para que ele enxugue a testa. Ele pega as folhas de papel mas afasta a mulher com um gesto meio brusco. Ninguém quer testemunha para sua própria agonia.
Sua cabeça é invadida por sentimentos contraditórios. Ele gosta de cozinhar. Aliás, adora. Mas de que serve passar o dia fazendo compras, fazendo o pré-preparo, finalizando os pratos em uma cozinha calorenta, se no momento de servir, de brilhar, ele não consegue estar no centro das atenções? Maldito cunhado que não para de falar! Mas a casa é dele! É o seu domínio. E o almoço está servido.
Os convidados tomam suas caipirinhas, seus gin tônicas e dão risadas. Eles não  tem idéia dos pensamentos que povoam a cabeça do cozinheiro neste momento. O sorriso continua ali, congelado. Mas o suor começa a escorrer pelo pescoço. O molho cremoso começa a engrossar. A estória é longa. Mas parece que está chegando ao fim. O almoço está servido.
“E agora, antes de passarmos à mesa, preciso fazer um brinde ao meu cunhado, que se dispôs a vir cozinhar para nós, fez as compras e passou a tarde na cozinha preparando a maravilha que nós vamos comer agora….mas antes…”.
“Não” – pensa o cozinheiro, não tem “antes”. É agora ou nunca! Até o parmesão já perdeu o dourado.
Neste momento o cozinheiro já não está mais nem pensando nas compras e na tarde que ele passou na cozinha enquanto todos se divertiam a beira da piscina, com cervejas geladas e música alta. Isso ele já superou. Agora ele só quer servir a droga da comida.
“Antes…eu quero mostrar para vocês o vinho que eu separei para esta ocasião. Querida, me traz o decanter?”
“Não, não e não!” O cozinheiro exclama, desesperado. O sorriso falso se transformando em uma carranca azeda. A esposa corre em sua direção com mais duas folhas de papel toalha. “Amor…calma, tá tudo bem. Ele está guardando este vinho a 2 anos”.
O almoço está servido. O cozinheiro não consegue mais se segurar. Sai correndo, atravessa o salão e se joga na piscina. A água fria o acalma e de repente, tudo na sua cabeça se clareia, ele percebe o quanto estava se comportando como um menino auto-centrado. Dá algumas voltas na piscina, faz uma sessão de respirações profundas na borda, se enxuga e volta para a mesa. Os convidados já se serviram e estavam conversando animadamente. Ninguém deu muita bola para o arroubo de fúria do cozinheiro. Ele se sentou em um cantinho da mesa e ganhou um tapinha nas costas do cunhado, que o cumprimentou: “meu, você é o cara! Que massa, hein?”. E complementou. “Podia estar um pouquinho mais quente? Podia.”

 

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