Não se apaixone pelo negócio

O que é Empreender

Qual é o princípio do empreendedorismo? Agregar valor a alguma coisa…aliás seja empreendedorismo interno ou externo. Se vc trabalha como funcionário de uma empresa, cada vez que vc agrega valor a alguma coisa, vc está empreendendo, mesmo que você seja um funcionário com um salário mensal.

E o que é agregar valor? Todo mundo fala nisso, todo mundo concorda que é importante, mas muitas vezes as pessoas não sabem, na prática, o que elas tem que fazer para agregar valor.

Se você percebe uma maneira de fazer alguma coisa com um custo um pouquinho melhor do que o custo que está sendo incorrido atualmente, você agregou valor.

Se você consegue imaginar alguma maneira de executar um processo qualquer no trabalho, que é executado todo dia, de uma maneira mais rápida do que a que vem sendo executada, mesmo que seja alguns segundos só mais rápido, pronto, você agregou valor.

Se você encontra uma maneira de conseguir mais clientes para o negócio, mesmo que sejam poucos clientes, você agregou valor.

Pegou a ideia? Agregar valor é introduzir qualquer melhoria na operação que resulte ou em uma diminuição de custo ou em um aumento de receita.

Agora vamos dar o exemplo de como isso pode ser aplicado na “carreira” de um empreendedor.

Antes de mais nada vamos ver como se comporta, ao longo do tempo, os fluxos de caixa em um investimento que é feito à partir do zero.

A Linha do Tempo

Antes da inauguração do negócio, os fluxos são sempre negativos – você está investindo, portanto, todos os meses sai dinheiro do caixa e nada está entrando, você ainda não está vendendo. Para efeito de exercício vamos supor que o investimento total neste negócio hipotético, é de 500K (sempre vou me referir a K como sendo um diminutivo de milhar, ok? 500k = R$500.000,00). Isso significa que no dia da inauguração do negócio o seu acumulado de caixa está em -500K.

O Céu Azul

Ao inaugurar o negócio, você espera que consiga reverter este fluxo negativo com o resultado da operação. Tendo mais receitas do que despesas. Auferindo lucros. Isso é o que todo mundo espera. Mês a mês você vai tendo lucros que vão “compensando” aqueles -500k até que chega o dia em que você consegue zerar os -500K e a partir daí passa a usufruir efetivamente dos lucros do negócio, já tendo se pagado (ou pagado o investidor) pelo investimento realizado para montar o negócio.

Este é o mundo ideal, o céu azul, sem nenhuma nuvem.

A Realidade

Tendo inaugurado mais de 14 negócios, seja como empreendedor assalariado ou como autônomo, e tendo convivido com muitos empreendedores e escutado relatos de outros tantos que compartilham suas experiências na nossa plataforma digital de gestão e empreendedorismo gastronômico, minha visão da realidade é bem diferente deste céu azul.

O que eu vejo que acontece em mais de 70% dos casos de empreendedorismo: o negativo, que deveria ir diminuindo após a inauguração, vai aumentando. Por diversas razões. Pode ser que as receitas ainda não tenham atingido o patamar esperado, pode ser que os custos tenham sido maiores do que o esperado, pode ser que tenha havido muita rotatividade de pessoas nos primeiros meses, pode ser que os sócios do negócio tenham se desentendido e prejudicado a operação, pode ser que os controles não tenham sido bem estabelecidos e esteja havendo roubos ou desperdício, e pode ser que esteja acontecendo tudo isso que foi mencionado ao mesmo tempo.

Acredite, continuar a ter fluxos negativos após a inauguração é muito mais regra do exceção no mundo do empreendedorismo.

E o que é pior. Estes fluxos negativos após a inauguração raramente são previstos pelos empreendedores. E eles não tem, na maioria das vezes, de onde tirar este fundo para dar conta do fluxo de caixa negativo. Aí começa o desespero. Emprestam dinheiro a juros proibitivos no banco. Pedem dinheiro emprestado a amigos e parentes, que obviamente relutam em emprestar, criando estresse emocional adicional ao empreendedor. Que diga-se de passagem, já está estressadíssimo tentando fazer com que seu negócio dê resultado positivo.

A Espiral Negativa

Todos os meses ele vê os -500K “crescendo para baixo”. No primeiro mês, virou -550K, no segundo mês, virou -600K e assim por diante. Não só ele não está conseguindo pagar a conta do investimento inicial como o negócio está consumindo 50K adicionais do caixa todos os meses.

Você acha que eu estou sendo exagerado neste exemplo hipotético? Então é porque você não conversou com uma amostra significativa de empreendedores. E esse é um dos grandes problemas de um aspirante a empreendedor. Nós nunca conseguimos falar com os que fecharam as portas e perguntar porque fecharam, que lições podemos aprender.

Simplesmente porque eles desaparecem, partem para outro negócio, arrumam um emprego, não querem aparecer e ficar falando sobre seus fracassos. É compreensível. Mesmo os que empreenderam e continuam abertos, raramente irão admitir que estão sofrendo para manter seus negócios em pé. Quando você pergunta: como vai? A resposta é sempre: tudo ótimo. Mas se pudéssemos tirar um raio X do negócio de cada empreendedor que encontramos, veríamos que o percentual de empreendedores que estão “crescendo para baixo” todos os meses é enorme.

E chega o momento em que o que começou o negócio – vamos chamá-lo de empreendedor original – não aguenta mais aquela situação.

O Negociante

É quando entra em cena o empreendedor ninja.

Ele sabe como é complicado fazer a roda girar pela primeira vez. Montar o empreendimento, contratar a equipe, criar todos os processos. E ele sabe também que é muito mais fácil você implementar pequenas melhorias nos processos que já existem do que começar os processos do zero. A energia gasta é muito menor.

Então ele fica buscando oportunidades no mercado. Ele procura uma situação como esta que eu descrevi acima, vai lá e faz uma oferta. De pagar 1/5 do que o empreendedor original investiu no negócio para comprar o negócio dele. E ainda pagar em 10 vezes.

No primeiro momento o empreendedor original recusa, quase o agride. “Tá de sacanagem? Eu gastei 500k e voce quer comprar por 100k e ainda pagar em 10 vezes? Nem a pau!

Mais 2 meses se passam e ele perde mais 100K (50K por mês). O empreendedor ninja conhece o jogo, dá um tempinho e volta lá, como quem não quer nada, e diz que a oferta continua de pé.

O empreendedor original pensa nos 100K que ele teve de prejú só nos últimos 2 meses, escuta a proposta com mais calma, pensa que no mês que vem ele pode, não só parar de colocar 50K no negócio como ainda colocar 10K no bolso, e sabe o que acontece? Ele fecha o negócio. Vende o empreendimento por 100K em 10 parcelas de 10K.

Sim, acabei de presenciar um negócio como este e acredite: é muito comum.

Agregar Valor ao Negócio

Aí o que faz o empreendedor ninja? Agrega valor àquilo que ele comprou.

Revê contratos, motiva a equipe, revê os processos, melhora o marketing e a gestão, aumenta um pouco a receita, diminui um pouco os custos e, depois de algum tempo, aqueles 50K/mês de prejuízo viram 20/30k/mês de lucro. Aquele negócio que ele comprou por 100K, passa a valer entre 800K e 1M menos de 1 ano após ele ter assumido o negócio. Sabe o que ele faz? Vende o negócio, realiza o lucro da venda do negócio e parte para fazer outro negócio.

Parece fácil mas não é. O empreendedor ninja tem que saber como introduzir as melhorias, como motivar as pessoas, como negociar, como detectar estas oportunidades no mercado. Tudo isso é fruto de experiência e conhecimento adquiridos. De sucessos e tombos passados. Conheço alguns empreendedores ninjas mas não conheço nenhum que não tenha passado por algum fracasso.

Não se Enamorar

O empreendedor ninja não comete o erro de se apaixonar pelo negócio, pelo produto ou pelo conceito. Ele é apaixonado pela melhoria dos processos, por agregar valor em uma operação.

E se ele quiser realmente empreender em alguma das suas paixões, ou em algum empreendimento que não faça sentido financeiro mas faça sentido emocional, por exemplo, ajudar uma filha a iniciar um projeto, ajudar uma causa sem nenhum retorno financeiro, ele saberá que pode investir uma pequena parcela do seu patrimônio nisso. Caso dê errado por algum motivo, a perda financeira não lhe trará grandes transtornos.

Conclusões:

* É muito mais difícil e estressante começar qualquer coisa do zero do que comprar alguma coisa que já esteja funcionando, apesar das inúmeras justificativas pelo contrário desta tese, a principal delas sendo a de que, ao começar o negócio do zero, você monta o negócio com a sua cara, com o seu jeito, fazendo com que os funcionários “rezem pela sua cartilha”. Eu também acredito nesta tese, mas somente depois do 4º ou 5º empreendimento, não no primeiro . Não ignore a física. Tirar um objeto da inércia exige muito mais força do que dar uma pequeno empurrão em um objeto que já está em movimento.
* Não se apaixone pelo produto ou pelo conceito de um negócio e tenha coragem de mudar rapidamente se você perceber que as contas não fecham. O empreendedor foca no resultado, a paixão vem em segundo lugar.

Dicas:
* A primeira coisa que você tem que fazer ao avaliar uma compra é determinar se você consegue, com sua expertise e com seus recursos, agregar valor ao ativo que está sendo adquirido. Se isto não estiver claríssimo para você, dificilmente o investimento se pagará.
* Invista bastante tempo e recurso em fazer contas bem detalhadas antes de começar ou adquirir qualquer negócio. Planeje os primeiros meses com folga no caixa.

Quer saber se vale a pena investir em um restaurante? Assista este vídeo do nosso canal

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