Sonhos, Paixão e Vocação

“When we give up on our dreams, we die, while still alive” – Robin Sharma

Na semana passada dei uma pincelada sobre a importância do reconhecimento da vocação nas tomadas de decisões que afetam a vida de jovens da idade da minha filha, que está para fazer 15 anos. Quero mergulhar um pouco mais fundo neste tema.

O segundo ano da faculdade de hotelaria que eu cursei na Suiça é 100% cozinha. Foi aí que eu pirei na culinária. Uma semana era cozinhar para 700 alunos, aquelas panelas de arroz que pra lavar tinha que entrar dentro dela…Na outra semana era aula de açougue, na outra de confeitaria, na outra cada um com seu fogão individual, fazendo uma receita completa, entrada, prato principal, sobremesa…eu acordava as 5h da manhã, tinha que estar na cozinha as 6h.

Era uma atividade frenética, mercadoria chegando durante toda a manhã, desossa o frango, limpa o peixe, pica a salsinha, 200 graus na boca do fogão, suando em bicas, menos 18º fazendo inventário na camara frigorífica, os dentes trincando de frio. Essa é a rotina em uma cozinha profissional. Tudo muito intenso.

E quando saia a comida pronta rolava aquela sensação de dever cumprido. O legal da cozinha é isso. Cada prato é um projeto completo. Vc planeja o que vai fazer, junta os recursos todos (ingredientes, utensílios, equipamentos), executa as etapas, apresenta o resultado, é avaliado na hora. Dá uma sensação de realização muito grande. Você participa do processo do começo ao fim. Eu achava aquilo o máximo. Todo dia tinha um projeto com começo, meio e fim. Encontrávamos a cozinha impecável, tudo arrumado, instalávamos o caos ali dentro e devolvíamos de novo, tudo arrumadinho, no final do dia.

Outro fator de realização na cozinha é a sensação de você ser um causador de transformações. Imagine farinha, ovo e queijo, separadamente. Agora imagine um suflê saindo do forno. Sim, você que fez. Com o apoio da física, da química e da matemática. Uma mistura de artista com cientista.

Aquilo era para mim, pensei. O trabalho do cozinheiro me parecia muito mais real e mais interessante do que a maioria dos trabalhos convencionais que existem por aí como opção para quem está se decidindo por uma profissão.

Eu nunca me imaginei sentado durante horas atrás de um mesa. Inclusive era isso o que fascinava na cozinha. Alguém já viu mesa e cadeira dentro de uma cozinha? Não rola.

Eu fui muito burro. Tive a sorte de vivenciar uma profissão que me atraía e me emocionava, mas acabei me deixando guiar pelo canto da sereia e fui me afastando cada vez mais da minha vocação e da minha paixão. As pessoas achavam que por conta da minha formação em hotelaria eu deveria me dedicar à gestão. Foram me oferecendo bons salários para que eu sentasse atrás de uma mesa e passasse a gerenciar um monte de gente.

Ao mesmo tempo a família ia crescendo e naquela época a comparação entre o salário de cozinheiro e o de gestor era injusta. De repente me vi entrando na cozinha só para reclamar com o chefe sobre alguma pequena cagada. Ou num dia de greve dos cozinheiros, quando tive que pular para dentro e ficamos eu e o chefe soltando todos os pratos para o salão.

Quando me dei conta já havia me afastado irreversivelmente da gritaria, do barulho das panelas, do calor e do frio, do sentimento de ter não só um, mas vários projetos finalizados em um único dia de trabalho.

Ontem fui na casa de um amigo de infância e vi quadros dele pendurado por toda a casa. Me lembrei de como ele era um ótimo pintor, me lembrei de quadros dele que enfeitavam minha casa a 30 anos atrás. Mas ele parou de pintar. Há muito tempo. Tem orgulho da sua arte. Tanto que tem seus quadros espalhados por todas as paredes da casa. Mas parou. Não pinta mais.

Conheço umas tantas pessoas que poderiam ter escrito livros. Quantas estórias fantásticas poderiam ter sido contadas por estas pessoas, tivessem elas seguido suas vocações, suas paixões? Estas pessoas são ótimos professores, assessores de imprensa, ganham suas vidas, ok. Mas cada vez que entram em uma livraria, lá no fundo da cabecinha, estão pensando: porque o meu livro não está nesta prateleira?

O sonho, a paixão e a vocação são só nossos, de mais ninguém. E muitas vezes é secreto. Poucos saem por aí dizendo que querem ser um astro do rock. Mas no fundo é isso que desejam. E talvez tenham vocação para tal. Mas nunca serão. 99% nunca será. Porque a vida é assim. É difícil resistir àquela musiquinha que todos cantam na sua orelha. Vai por ali que é mais seguro, mais fácil, todo mundo tá indo. E quando você vê o astro de rock foi desaparecendo, as pessoas, inclusive as mais próximas, vão aplaudindo suas pequeninas conquistas, você olha pra trás, vê o astro de rock lá longe e pensa: é…deixa pra lá…podia ter sido.

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