Manifesto da Culinária nas Escolas

culinaria

Ensina-se portugues e matemática na escola porque todos sabemos que o conhecimento destas 2 ciências será fundamental para o progresso do indivíduo ao longo da sua vida. Faz parte do senso comum, da sabedoria inquestionável da humanidade.

Agora eu pergunto: e a culinária? Não teria o aprendizado das técnicas de cozinha um peso igualmente importante na formação da pessoa?

Me ajudem a pensar. A comida é o combustível que colocamos dentro do nosso corpo para fazer com que a “máquina” funcione. É o que nos mantém vivos. Que nos fornece os nutrientes que alimentam todas as nossas células. Que nos dá energia para fazer todas as coisas do nosso dia a dia.

Agora eu pergunto (2): não é importante que as crianças aprendam desde cedo a cozinhar? A conhecer muito bem os alimentos e saber as diferentes funções de cada um? A saber como tornar os alimentos suculentos através da cocção?

Ora, a cocção através do fogo foi uma das grandes evoluções da humanidade. O fogo existe desde sempre, muito antes da cocção. Hoje não conseguimos imaginar como nossos antepassados comiam antes da cocção. Antes de o ser humano ser capaz de colocar um recipiente com água (com uma batata dentro) em cima da chama do fogo foi preciso criar o ferro. Pense nisso. Antes, os humanos iam mastigando coisas cruas que encontravam pelo caminho. Mastigavam por horas. Dizem que o cérebro humano passou a se desenvolver realmente após o advento da cocção. Antes ele se concentrava nessa mastigação e na digestão contínua.

E é sabido que a digestão é um dos maiores consumidores de energia do nosso corpo (só o sexo gasta mais energia – é verdade!). Com a cocção vieram as refeições, com horários certos. E o cérebro passou a se dedicar a outras atividades entre uma refeição e outra. Aliás, esta é uma das razões pela qual somos aconselhados a fazer 5 refeições (mais leves) por dia, ao invés de 3 mais pesadas. Isso também deveria ser ensinado nas escolas.

O fato é que a humanidade evoluiu mas nunca fez justiça à importância da cozinha para a sua evolução. Tanto é que as escolas não consideram importante ensinar aos alunos do fundamental as noções básicas, salvo raríssimas exceções.

Morri de vergonha na feira, há 3 anos atrás quando minha filha, então com 11 anos, não sabia o que era uma batata. Batata frita ela conhecia. Mas “in natura” eu tive que fazer a introdução. Horrorizado, fiz o teste da batata também com algumas amiguinhas dela. A maioria desconhecia! Juro.

Não pensem que eu não tentei mil vezes despertar o interesse da minha filha para a culinária. Mas ela tem outros interesses, quem tem filho nesta idade sabe do que estou falando, conhece bem estes interesses, sabe das nossas limitações para impôr certos aprendizados. É quase impossível concorrer com o snap, o espelho, o whats e por aí vai. E hoje pela manhã ainda me chega o Pokemon!

Mas não deveria ser por nossa limitação enquanto pais que o aprendizado de algo tão fundamental para a nossa existência deixe de ser ensinado para nossas crianças. Eu insisto que este deveria ser o papel da escola. Da escola fundamental.

Nós já evoluímos muito com relação ao aprendizado da cozinha. Hoje existem um milhão de escolas de culinária, faculdades, etc. Mas não acho que esta deva ser uma ciência “eletiva”, que o aluno tem ou não a possibilidade de aprender, se e quando desejar. Acho que deveria ser obrigatório e já no fundamental, assim como o português e a matemática.

Está cada vez menos comum termos cozinheira em casa. Cada vez menos comuns as mulheres aprenderem a cozinhar ao lado do fogão, com suas mães. As mulheres estão em outra, ora bolas. Então para a imensa maioria das famílias que está se formando nestes tempos só restará comer em restaurantes (baratos, pois a crise está aí) ou comprar comida pronta ou semi-pronta nos supermercados. A perspectiva é assustadora.

Estamos condenando uma geração inteira à mediocridade culinária. É duro mas é isso que está acontecendo. Eu canso de ver as pessoas estragarem uma peça de filé mignon que custou 80 reais simplesmente porque a empregada ou a pessoa que está cozinhando não domina uma técnica que poderia aprender em 5 minutos.

E toda uma família é condenada a comer mal por conta disso. Sem falar na questão nutritiva, ou na origem dos alimentos. Mas esta é outra estória…quantas pessoas sabem dizer o nome dos legumes na seção de hortifruti do supermercado sem olhar na plaquinha? Muitas. A maioria. É um absurdo. Ao não saber nem o nome do produto, dificilmente irão comprar. E não irão cozinhar. E as famílias comerão uma variedade muito pequena de produtos, com relação a todos os produtos que estão disponíveis. Isso é triste.

As pessoas não conhecem os produtos e tampouco os métodos de cocção. A batata ou é frita, ou cozida, ou é purê. Mas existem 500 maneiras de se fazer batata. Não é justo a humanidade ser privada desta variedade.

Isso é muito importante. Estamos falando daquilo que nos deixa em pé. Existe uma correlação direta entre o combustível que colocamos pra dentro e nossa performance enquanto pessoas. Como assim, não é ensinado na escola? Algum diretor de escola poderia me explicar?

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