O Medo e a Incerteza

mandela

Antes dos 18 anos de idade achei que aprender inglês e francês era importante. Como todo jovem, achava que ia mudar o mundo e portanto o domínio de idiomas seria fundamental.

Aos 19 fui para a Europa pela LAP, Linhas Aéreas do Paraguai, desembarquei em Madri no mesmo dia em que a maconha estava sendo liberada para consumo. Nunca vou me esquecer da manchete no jornal: – “liberado el porro (baseado) en Espana!”

Assim como Bill Clinton, nunca vou dizer nem que sim nem que não, mas desembarquei com a sensação de ter chegado no lugar certo e na hora certa, num momento de liberação. E parti para o desbravamento da Europa. Sozinho, com uma mochila nas costas, um berimbau (de capoeira) embalado em uma linda capa de couro branco e uma prancha de surfe bi-quilha da marca Squalo debaixo do braço.

A prancha eu vendi na praia de Carcavelos em Portugal, com um bom lucro. Os portugueses não conheciam pranchas bi-quilha. E o berimbau foi trocado por um potente binóculo Zeiss com um alemão que estava encantado com o som deste instrumento brasileiro de uma corda só.

Livre destes pesos que trouxera do Brasil e com a certeza de ter iniciado minha carreira de empreendedor fazendo ótimos negócios, saí à conquista do velho continente. Levei do Brasil 2 mil dólares em forma de traveller checks e em uma semana já havia aumentado meu patrimônio. Tinha uma passagem de volta com validade de um ano mas minha família tinha certeza de que o dinheiro acabaria e eu estaria de volta em 2 ou 3 meses.

Mas eu tinha ambições. Queria provar que era capaz de me sustentar e estabeleci como objetivo estender ao máximo minha estadia e meus 2 mil dólares. Só que era verão na Europa e eu era jovem. Duas coisas que não combinam com economia. Saí gastando e depois pensaria na reposição. Em menos de 2 meses a reserva estava em 500 dólares e em queda livre. Que péssima estréia como empreendedor.

O verão já havia acabado, um bom momento para começar a trabalhar. Fiz a colheita de uvas na França e de azeitonas na Grécia; ganhei uns trocados tocando pandeiro em um trio de brasileiros que cantava bossa nova – os únicos instrumentos que eu toco, e muito mal, são o berimbau e o pandeiro, por conta da capoeira, que eu pratiquei desde muito cedo. Um dia dormimos embaixo do guichê de caixa do metrô em Viena e quando acordamos percebemos que o violão havia sido roubado. Sem violão não tem bossa-nova, o grupo se dissolveu e cada um foi para um lado.

Um dia liguei para casa para comunicar a minha família que havia arrumado um emprego fixo de nettoyer de la nuit em um hotel perto de Genebra. Minha mãe ficou orgulhosíssima, saiu contando para todas as amigas, até descobrir que aquela expressão significava… faxineiro noturno. “Que decepção, meu filho..volta pra casa…”.

Na verdade não era tão ruim, eu trabalhava das 11h da noite as 7h da manhã, passava o aspirador no restaurante, pano úmido no lobby, mas as limpadoras do dia eram muito simpáticas comigo e ao ir embora deixavam os banheiros limpinhos, então nem isso eu tinha que fazer. As 3h da manhã já havia terminado meu trabalho e rapidamente descobri que os outros integrantes da esquadra noturna, o auditor, o recepcionista e o padeiro, também não tinham mais nada a fazer a partir desta hora. Encontramos uma ótima maneira de passar o tempo até o término do nosso turno. Invadíamos a câmara frigorífica e escolhíamos nosso menu degustação entre fartas porções de filé mignon, cogumelos os mais variados, queijos das melhores procedências e até sobra de garrafas de vinhos excelentes que haviam sido deixadas pelos clientes durante o jantar. Um verdadeiro festival gastronômico. Todas as noites.

Não me importava com o status dos trabalhos que conseguia, o importante era “esticar” os 2.000 dólares ao máximo e continuar na jornada, seguir em frente, conhecer muitas cidades, países e pessoas, e sobretudo, provar que conseguia me manter com meus próprios meios.

Ia viajando, fazendo bicos, fazendo amigos, dormindo e comendo, aqui e ali, sem grandes preocupações. E consegui estender minha estadia por 8 meses, antes de desistir, com 50 dólares no bolso, um frio de rachar, congelado em uma cabine telefônica, no meio do inverno, ligando aleatoriamente para qualquer número da lista telefônica, à procura de um trabalho. Sem sucesso. Voltei com o rabinho entre as pernas, mas feliz com minha performance. Os 2 ou 3 meses viraram 8.

No ano seguinte fixei residência na Suiça, onde me formei em hotelaria e passei outros 15 anos viajando a trabalho na França, Estados Unidos, Venezuela, Argentina, Recife, Santa Catarina, Rio de Janeiro, até voltar a me fixar em São Paulo, em 2004.

Não consigo determinar ao certo em que momento eu comecei a sentir medo do futuro. Em que momento as incertezas começaram a me assombrar? Não lembro quando, exatamente, a juventude destemida cedeu lugar à preocupações com o sustento da família, com a sobrevivência da empresa, com a saúde do corpo.

Será a tal da maturidade? Acontece com todo mundo? Ou sou só eu que acorda muitas vezes pela manhã com medo?

Comecei a ler um pouco sobre o assunto, a conversar com amigos com os quais tenho bastante intimidade e descobri algo muito interessante. Todo mundo tem medo!! Sim, todo mundo. É universal.

Cada um de nós vive o medo do seu modo. O medo de morrer e de ainda não ter construído um patrimônio que deixará nossa família tranquila. O medo de outros membros da nossa família morrerem e nos deixarem sozinhos neste mundo.

Mas a morte é um medo que consideramos “legítimo”, daqueles de que não temos porque nos envergonhar ou porque nos preocupar, dada a sua infalibilidade, caso consigamos chegar a tal nível de abstração.

Li por aí que depois da morte, o maior medo das pessoas é o de falar em público, mas não compro muito esta ideia. Acredito que o medo do fracasso é o que mais nos assola. E acho que é assim com todo mundo, não é só comigo e com você. Somos nós, o Bill Gates, o Obama, todo mundo. Este medo povoa nossas mentes o tempo todo. Será que tudo pode dar errado? Que eu posso quebrar? Deixar todo mundo na mão? Decepcionar minha família, meus amigos, meus funcionários? Como viverei com esta decepção? Como conseguirei olhar para minha família no café da manhã depois de ter fracassado?

Mesmo que não estejamos liderando uma nação, um grande empresa ou mesmo um pequeno departamento, ainda assim, ambicionamos transformar este pequeno mundo ao nosso redor, não é mesmo? Acredito que este seja o nosso papel. E temos que lutar diariamente para que este medo de as coisas não darem certo não nos leve à inércia, à paralisação. Esta é a pior consequência dos nossos medos. Não podemos deixar que isso aconteça conosco.

Li também em algum lugar (preciso começar a colocar as fontes, eu sei, mas me dá uma preguiça..) que nosso medo decorre da nossa incerteza com relação ao futuro. E que qualquer coisa que aumenta nossa incerteza aumenta o nosso medo.

Mas calma lá! Nós moramos no Brasil, como vamos viver sem a incerteza? Nosso desafio é outro, é conviver com a incerteza, aceitá-la e tocar a vida. O máximo que pode acontecer conosco é….o fracasso.

Você já fracassou? Já quebrou uma empresa, já deixou de pagar a escola dos seus filhos, o aluguel da sua casa? Não? Então não sabe o que está perdendo. Quebre logo. Quebre aos 30. Pois assim você terá tempo de se recuperar aos 40 ou até aos 50. E verá que a gente sempre se recupera. Ficará mais esperto, até porque, como diz a lenda, cachorro que foi mordido por cobra tem medo de linguiça. Quebre, se recupere e verá, aos poucos, a libertação dos seus medos. O afastamento da incerteza.

Ainda assim você acordará muitas vezes e perceberá que estes 2 pentelhos, o medo e a incerteza, levantaram antes de você e estão ali, te esperando, na mesa do café da manhã. Ignore-os, faça seu capuccino, leia seu jornal, tome o seu banho, comece o seu dia. Não deixe que eles te paralisem, te impeçam de fazer as coisas que tem que ser feitas.

Sim, eu tenho saudades dos meus 20 anos, quando a incerteza e o medo ainda não constavam do meu vocabulário. Minhas filhas tem essa idade e este mesmo espírito infalível. Mas saibam que a vida, a responsabilidade de uma família, de um negócio, a própria idade e o envelhecimento do corpo trarão este 2 impostores para perto de vocês.

Só não deixem que eles estraguem seu café da manhã.

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