Lição de Persistência – Um paulista querendo aprender futevolei no Rio de Janeiro

O ano era 1999. Tinha acabado de chegar ao Rio de Janeiro para inaugurar o Hard Rock Cafe. Passava todos os dias pela orla do Leblon e via as partidas de futevolei rolando na areia, do lado do calçadão. Parava e ficada observando por horas.

Nunca tinha visto. Sempre fui aficcionado por futebol, mas aquilo…igualzinho o volei de areia, com a diferença que você não pode usar as mãos. O que obviamente muda tudo, transforma em um outro esporte. Não usar as mãos significa usar a cabeça, o peito, o ombro, a coxa, os pés. Significa desenvolver habilidades com todos estes outros membros que nem o futebol nem o volei proporcionam.

Fiquei imediatamente fascinado e pensei com meus botões: isso é pra mim!

Qualquer jogador de futebol, ao ver uma partida de futevolei, tem a ilusão de que não deve ser tão difícil. Afinal de contas, se ele é bom com a bola nos pés…Mas não é bem assim que a banda toca. No futebol você usa o peito para amortecer a bola. No futevolei é o contrário, você usa o peito para rebater a bola, um fundamento que nenhum jogador de futebol aprende. Ao invés de chutar a bola pra frente, o objetivo é colocar a bola pra cima. Você não usa jamais o peito do pé, somente a lateral interna. As diferenças são gritantes, mas isso você só percebe ao entrar na areia, até então você tem a triste ilusão de que o aprendizado será um “passeio no parque”.

Se tenho uma característica da qual me orgulho é a persistência. Decidi que iria aprender a jogar futevolei.

Mas como aprender sendo um paulista, branquelo, de quase 40 anos? O futevolei é similar ao tênis no sentido de que ninguém se inicia no esporte chegando em um rede de jogadores experientes e pedindo para jogar uma partida. Não rola. Os caras vão olhar pra você e dizer: meu amigo, vai treinar durante 4 anos e depois volta aqui. No futevolei é a mesma coisa, com a diferença de que o tenis nasceu na Inglaterra e o futevolei, no Brasil. Vão te dizer a mesma coisa, mas de uma maneira, digamos, menos polida. Do tipo: “cai fora, mané!”

Só existe uma marca e um tipo de bola de futevolei. É a Mikasa FT 5. Importada. Hoje já se compra facilmente aqui no Brasil. Naquela época era um pouco mais difícil.

Minha primeira tentativa de me enturmar com a galera do futevolei foi frustante. Em uma viagem para Miami comprei uma bola e pensei. Se eu chegar na areia com a bola, quem sabe não me deixam jogar? Triste ilusão. Eu ficava sentadinho na areia, ao lado da quadra, com a minha bola reluzente de nova, esperando uma oportunidade, um chamado de alguma alma piedosa. Mas não rolava. Algumas vezes um dos jogadores vinha em minha direção, eu ficava meio nervoso achando que teria chegado minha hora, mas que nada. Ele falava: aí Russo, empresta essa bola aí? Eu emprestava. E depois eles me devolviam a bola toda suada, e eu ia pra casa, desanimado. Reparou no detalhe? Me chamavam de “russo”…

Minha mulher é ponta firme. Ficava ali do meu lado, enfrentando o areião quente perto do calçadão, ao invés da beira do mar, onde era mais fresco, pra me dar uma força. Pensando em retrospectiva, talvez eu tivesse preferido uma humilhação solitária do que uma com testemunha.

Como já tinha a bola e uma esposa parceira, ela virou uma espécie de técnica, ou melhor, rebatedora. À noite, depois do trabalho, passávamos horas na praia, ela lançando a bola para mim e eu rebatendo de volta. Fazíamos este treinamento todos os dias, inclusive nos dias de chuva, quando não havia mais ninguém na praia. Aos poucos fui aprendendo os fundamentos. Pé, coxa, peito, cabeça. Pé, coxa, peito, cabeça. Ela lançando e eu rebatendo. Horas a fio. Semanas a fio.

E assim se passaram 6 meses de treinamentos solitários, muitas vezes na chuva, intercalados com a observação intensa dos jogos que ocorriam nos finais de semana, sentado do lado de fora da quadra, com a minha bola novinha pronta para ser oferecida aos “craques”. Que me chamavam de Russo.

Numa manhã ensolarada de sábado, no posto 11, estávamos sentados no quiosque, tomando um côco, observando uma partida que acontecia bem na nossa frente. A partida terminou e um dos jogadores foi para o mar. Ficaram 3 jogadores em quadra olhando para os lados para ver se encontravam um quarto elemento para compor a partida. Olhei para minha mulher, peguei na mão dela, olhei dentro dos seus olhos e disse: é a minha chance! Ela me disse: vai que é tua! E eu desci para a areia e perguntei: dá pra jogar uma partidinha com vocês?

Um olhou para o outro, que olhou para o outro, os 3 olharam em volta para se certificar de que realmente não haveria um quarto elemento mais qualificado do que este paulista branquelo que não tinha a menor pinta de jogador de futevolei, e finalmente saiu o veredito: “tá bom, vamos jogar umazinha”. Tá ótimo! Umazinha é tudo o que eu preciso, pensei. Eles não tinham idéia da minha saga até aquele momento, da minha vontade e da importância daquela primeira partida na minha cabeça ansiosa.

Já entrei em quadra com a boca seca e comecei a suar antes de tocar na bola. Minha mulher observava do quiosque com ar de condescendência, tipo: a primeira é assim mesmo. Teria preferido que ela fosse dar uma voltinha pelo calçadão, mas não, ela ficou até o fim, me vendo sofrer, errando uma bola atrás da outra, correndo sem rumo, nenhuma noção de quadra.

Ao final da partida nada de um “legal Paulista, aparece aí”, “jogamos bem mas não deu”, nada disso. Foram os 3 para o mar sem falar nada e eu achei mais prudente não acompanhá-los. E também não queria voltar para o quiosque e encarar a minha mulher, com aquele olhar de quem foi buscar o filhinho na escola no primeiro dia de aula. Fiquei ali, sentado na areia, pensando: preciso mudar de estratégia.

Me matriculei em uma escolinha de futevolei, mais para o final do Leblon, em direção à Ipanema. O professor chamava-se Dico e a turma tinha uns 4 alunos. Meu melhor amigo era o João, um menino de 12 anos. Treinávamos recepção de saque, levantamentos e ataques e no final do treino fazíamos uma partida. Foram meses de treinamento com o Dico. Comecei a melhorar os fundamentos, mas treino é treino e jogo é jogo. Os treinos, além de melhorarem a nossa performance, também nos dão a exata noção do quanto nos falta ainda para jogarmos o mínimo para “dar jogo” no jogo real. Não digo nem de jogar de igual para igual, mas simplesmente para não acabar com o jogo dos caras que sabem jogar.

Fui encontrando meu caminho. Observei que os jogos de sábado e domingo começavam lá pelas 11h. E que o pessoal ia chegando na quadra a partir das 10:30h. Então eu chegava na praia as 10:20h. Quando chegava o terceiro jogador e os 3 estavam esquentando na “altinha” (jogando a bola para cima, entre si), eu chegava junto, na cara dura, e perguntava: posso completar a quadra só até alguém chegar. Esta abordagem funcionava bem, pois mesmo que eles vissem que eu era iniciante, seria só até o quarto jogador chegar. Ocorre que, mesmo sendo cariocas, eles ficavam meio sem jeito de me dispensar quando o quarto jogador chegava, e me deixavam jogar a partida até o final. Eu geralmente perdia, mas fui adquirindo experiência de jogo “real” e não só de treino. E mais importante, fui conhecendo a galera, interagindo. Fazia isso todos os sábados e domingos.

Eu havia inaugurado o Hard Rock Cafe na Barra, e rapidamente se transformou numa balada de sucesso na noite carioca. Minha vida no futevolei deu um grande “up” quando eu percebi que os ingressos para o Hard Rock Cafe tinham um grande valor junto à galera do futevolei. Cheguei junto do melhor jogador da rede e mandei na lata: “tó aqui uns ingressos para o Hard Rock, pra você levar uma galera”.

No dia seguinte, quando eu cheguei na rede, ele gritou bem alto, para os outros escutarem: “o Paulixxxta é minha dupla. Faz a dupla de vocês aí..”. Completamente despudorado, passei a distribuir ingressos do Hard Rock a torto e a direito. Quando estávamos só eu e o professor no treino, oferecia R$5,00 para cada jogador que se dispusesse a formar uma dupla para jogar conosco. Pode chamar de propina, mas para mim era apenas um investimento de R$10,00 na minha formação.

Jogando com o melhor da rede em troca de ingressos, pagando cincão aqui, cincão ali, meu futevolei começou a melhorar, as vitórias começaram a aparecer, fui ganhando moral com a galera, ganhando confiança, fazendo amizades e consegui, enfim, viver o meu sonho de viver no Rio como um carioca nativo, praticando um esporte pelo qual me apaixonei à primeira vista. Em 2004 vim morar em São Paulo e consegui convencer a diretoria do meu clube a investir na construção de uma quadra de futevolei, sendo que não havia uma única alma que praticasse este esporte no clube. O sucesso foi tão grande que uma segunda quadra foi construída. Depois disso, quase todos os clubes de São Paulo construíram suas quadras, o esporte se popularizou, começaram os campeonatos inter-clubes e novas gerações vão sendo formadas. Quem sabe um dia se torne um esporte olímpico.

Continuo indo para o Rio com muita frequência, jogar com meus amigos no Leblon. Não me chamam mais de Russo e não preciso mais comprar ninguém. Até do grupo de whatsapp da rede eu participo. Em São Paulo eu participo dos campeonatos “master”. Quer me encontrar? É só perguntar pelo “Corôa” do futevolei.

Conclusões:

Se alguma coisa te desperta uma verdadeira paixão, persista.

Não tenha receio de se humilhar um pouquinho para conseguir seus objetivos.

Valorize o sonho do seu parceiro (parceira) e mostre apoio. Mas vá dar uma volta na primeira “exposição pública”.

Se o único recurso possível for comprar o acesso, não seja moralista, compre.

6 comentários em “Lição de Persistência – Um paulista querendo aprender futevolei no Rio de Janeiro”

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