Zona de desconforto – Uma aventura na Venezuela

Eu trabalhava no Grupo Accor, na divisão de hotéis Sofitel. Alguns hotéis na Venezuela pertenciam ao Estado e foram privatizados. O primeiro deles a ser privatizado foi o Hotel Cumanagoto, na cidade de Cumaná, no litoral. O vencedor da licitação foi um milionário venezuelano de nome Nelson Mezerhane, que assinou um contrato com o grupo Accor, que passaria a fazer a gestão do hotel.

Quando a matriz da Accor na França ligou para o Roland de Bonadona, meu chefe à época,  perguntando se ele poderia indicar alguém que falasse espanhol e francês e que estivesse interessado em uma missão especial na Venezuela, eu nem procurei saber muito do que se tratava. Eu estava atrás de emoções e eles pagavam bem.

O ano era 1992, e tinha acabado de acontecer uma tentativa de golpe contra o governo de Carlos Andres Perez. Com a baixa do preço do barril de petróleo decorrente do aumento da produção dos países árabes, a Venezuela viu minguar sua principal fonte de receita e seu governo se viu obrigado a seguir a cartilha neo-liberal do FMI, o que não agradava a muitos setores da população. O insurgente era um jovem coronel do exército de nome Hugo Chavez. Chavez estava preso quando eu cheguei na Venezuela.

Uma das consequências desta política neo-liberal era a privatização de alguns setores em que o estado estava envolvido e que o governo achou que deveria passar às mãos da iniciativa privada, entre os quais a hotelaria.

O representante da Accor que havia assinado os contratos com o novo proprietário do hotel me recebeu no Aeroporto, em Caracas, e me disse que não poderia me acompanhar até Cumaná porque teria que voltar para a França. Me entregou uma cópia de todos os documentos referentes tanto à privatização quanto à gestão por parte do grupo Accor. Explicou a minha missão e se despediu. Eu deveria assumir o hotel, fazer uma avaliação das instalações e da qualidade da mão de obra e fazer um levantamento do que seria necessário para convertê-lo em um hotel de padrão Sofitel.

Peguei o avião no dia seguinte e depois de uma hora de voo, desci em Cumaná, o primeiro povoado fundado por europeus na América. Fui direto para o hotel e nem consegui apreciar a linda paisagem entre o aeroporto e a praia de San Luiz, onde ficava o hotel.

Eu estava tenso e sozinho. O hotel havia sido privatizado e portanto os 250 funcionários  eram, até a semana anterior, funcionários públicos. Todos os funcionários, inclusive o gerente geral. Eu nunca havia estado em um hotel tocado por funcionários públicos. E pelo pouco que eu havia pesquisado sobre a Venezuela, o funcionalismo público por lá tinha a mesma fama do funcionalismo público do Brasil, ou seja, uma máquina de ineficiência. Poderia funcionar em um hotel? O que levou o milionário a comprar o hotel? Terá sido uma barganha? Como os funcionários reagiriam a um estrangeiro muito jovem representante dos novos proprietários? O que eu estava fazendo naquele lugar? Todas estas questões foram respondidas em menos de 10 minutos após minha chegada no hotel.

Era a o fim de semana de Páscoa, hotel lotado de turistas. Sim, o hotel estava funcionando normalmente. Quer dizer, não estava funcionando, como normalmente não funcionava. Como pode funcionar um hotel onde a presidente do sindicato nacional do trabalhadores hoteleiros da Venezuela era a chefe da recepção?

A privatização do hotel havia sido radicalmente rejeitada pelos funcionários, que obviamente estavam preocupados em perder as “regalias” de um emprego público. Mas desde o dia da privatização até o dia da minha chegada ao hotel, nada na vida deles havia mudado. A chefe do sindicato continuava a mandar mais do que o gerente, sempre escoltada por 2 funcionários que, segundo a folha de pagamentos, estavam registrados como caixa de restaurante, mas que nunca haviam fechado uma conta na vida.

A minha chegada foi como a aparição do satã. O representante dos exploradores capitalistas que usurparam o patrimônio venezuelano. Eu era o Yankee que iria dominar os pobres nativos. O clima de hostilidade era palpável. O gerente nem me recebeu na recepção do hotel. Tive que ir até a sala dele e me apresentar. Ele me olhou com um certo desdém e me perguntou de onde eu iria trabalhar, em qual sala. Neste momento eu decidi me posicionar. Ou mostrava a que tinha vindo ou seria engolido vivo em uma pequena cidade distante na costa venezuelana do Caribe. “Aqui mesmo. Esta mesa passa a ser minha e voce vai encontrar um outro lugar para se sentar, voce deve conhecer bem o hotel”. Geralmente eu sou um cara simpático em qualquer interação inicial com outro ser humano. Mas ali era uma questão de posicionamento, de deixar um recado.

Percebi imediatamente que a minha estadia na Venezuela não seria um passeio. Seria impossível converter aqueles cozinheiros e garçons de 30 anos de serviço público em funcionários padrão Sofitel. O hotel estava caindo aos pedaços, a muito tempo o governo não fazia investimentos.  Seria necessário fechar o hotel para reinaugurá-lo depois de uma profunda reforma. Mas antes de fechá-lo arquitetos deveriam ser contratados, o mercado deveria ser estudado, etc. O fechamento não poderia ser algo imediato. Um plano com etapas e metas deveria ser desenvolvido e o ponto mais importante de todos, deveria ser equacionado: o que fazer com os funcionários? Eram todos sindicalizados, conservadores, avessos à novos aprendizados e claramente contrários a qualquer mudança que pudessem alterar o status de funcionários públicos de que disfrutavam.

Eu tinha que tocar aquele barco e tinha 3 pessoas de confiança para me ajudar na missão. Um gerente operacional chamado Tulio Corrales, um gerente financeiro chamado Juan Carlos Bugallo e uma secretária/assiste chamada Mary.

Em um sábado no meio do feriado de Páscoa,  a Mary vem me dizer que a presidente do sindicato estava organizando uma reunião com os funcionários as 15h no centro de convenções do hotel. Como assim?? No meio do feriado? Com o hotel lotado? Esta mulher pirou. “Mary, vai lá, tranca a sala e me traz a chave”. “Pero señor Marcelo, y la presidenta del sindicato? És una persona terrible!! No le dá miedo?”. “Mary, vai lá e tranca!”.

Fiquei na minha, olhando aquela imensa sala e não conseguia pensar em nada. É lógico que eu estava com medo. Até aquele momento eu sentia a animosidade mas ainda estava tateando, ainda não havíamos nos confrontado. Eu só escutava falar dela, do seu jeito bruto, de sua intempestividade e autoritarismo. Ainda não tinha tido nenhum contato com ela, eu a havia chamado para que nos apresentássemos mas ela havia ignorado o convite.

As 14:50h eu escuto o maior barulho na ante sala, uma discussão, e em seguida a Mary entra com a cara assustada e anuncia: “A Nelly Bettancourt veio falar com o Sr”. “Mary, eu tenho 31 anos, pára de me chamar de ..”. Antes de terminar a frase, entra na sala uma mulher grande, com jeito masculino, a pele bem escura, o pescoço atarracado, o cabelo cortado bem curto, com seus 2 capangas (caixas do hotel) também grandes, um marchando de cada lado. Ela venceu a distancia de 10 metros entre a porta da sala e a minha mesa em 3 passadas e parou na minha frente. Nunca tinha tido medo de mulher..até aquele momento. Mas não podia dar bandeira.  Fingi que estava terminando alguma coisa muito importante antes de me virar para ela.

“Usted sabe con quien estás hablando? Yo soy Nelly Bettancourt, la presidenta del sindicato nacional…y exijo que la sala de reuniones sea abierta ahora!”

Até então eu vinha tentando me posicionar de uma maneira mais “soft”, tentando explicar minha missão, dialogar, porque sabia que teria que trabalhar com aqueles funcionários durante um bom tempo, portanto seria melhor uma convivência pacífica do que belicosa. Mas eu sabia que o conflito seria iminente, que iria chegar mais cedo ou mais tarde. Me levantei da cadeira e mandei na lata:

“Sra Nelly, muito prazer, meu nome é Marcelo, representante dos novos acionistas do hotel. A sala continuará fechada. O hotel está cheio, os funcionários devem estar cada um nas sua posição de trabalho e isto é uma ordem que não está aberta a discussão. Se a senhora quiser promover uma reunião do sindicato, o hotel empresta a sala, desde que seja em um dia de baixa ocupação e a solicitação seja submetida a minha aprovação com pelo menos 1 semana de antecedência.” Dei meio sorriso e me sentei.Ela ficou vermelha, seus olhos quase pularam para fora da sua cara redonda, fez meia volta, empurrou a coitada da Mary para o lado e marchou de volta para a porta. Os capangas, antes de se virarem também,  ainda ficaram alguns segundos me fitando com olhar ameaçador, do tipo que quer dizer: “voce não sabe,  definitivamente,  com quem está se metendo.”

E eu realmente não sabia. Ameaças começaram a vir de todos os lados, tive inclusive que me mudar de hotel, para um hotel ao lado que se chamava Los Bordones. Ligava para o pessoal da Accor na França e eles me diziam: “Marcelô, voce tem todo o nosso apoio, faça o que tiver que ser feito”. Ligava para o pessoal do Nelson Mezerhane em Caracas e eles diziam: faça o que tiver que ser feito.

Fiz o que tinha que ser feito mas minha vida virou um inferno. Contratei uma equipe de seguranças que se revezavam nas 24 horas do dia, inclusive se posicionando na porta do meu quarto. Me deram um rádio com um fone de ouvido através do qual eu passava o dia escutando os movimentos de cada um através de códigos. Eu era o “Aguia 1” , os 2 gerentes “amigos” eram “Aguia 2” e “Aguia 3”. O pessoal da segurança eram os “falcões”, sendo o chefe da segurança o “Falcão 1” e assim por diante.

Para que o hotel funcionasse nos padrões do grupo Accor, era fundamental trocar os funcionários antigos por novos, que pudessem ser treinados nos novos padrões, que tivessem sede de aprendizado. E era fundamental também romper os vínculos com o sindicato. O sindicato não tinha a menor comprometimento nem com a evolução profissional de seus membros nem com a qualidade da prestação de serviços no hotel. O que eles queriam era tumultuar. Mas mesmo uma simples demissão representava um problema político, reascendia a ira daqueles que estavam contra o processo de privatização. Portanto ou se mexia no vespeiro de uma vez, arrancando-o do galho da árvore, ou seríamos comidos vagarosamente pelas vespas. Nosso plano inicial de tocar o hotel até que os projetos de reforma ficassem prontos teve que ser modificado. Tivemos que antecipar o fechamento e assumir o prejuízo por tal decisão.

Começou uma enorme batalha jurídica com a contratação dos melhores advogados trabalhistas de cada lado. O sindicato apareceu com um advogado conhecido como “El Tigre” e nós contratamos “El Leon”. Eu andava para cima e para baixo com um livrinho chamado “Ley Organica del Trabajo” para entender como eram as leis trabalhistas locais e poder ter um mínimo de conversa inteligente com os advogados.

Acabamos conseguindo demitir todo mundo ao custo de mais de 1 milhão de dólares e fechar o hotel. Ainda tivemos que trasladar todas as coisas do hotel, equipamentos, mobiliários, etc, para um galpão alugado. Tudo com a mesma equipe que estávamos demitindo. Um segurança ficava posicionado em cada esquina para assegurar que nada seria desviado no meio do caminho.

Nestes 6 meses de Venezuela eu sofri todo tipo de ameaças, tive que aprender a trabalhar em um país diferente, sob enorme pressão, em um ambiente de trabalho hostil. Foi o melhor aprendizado que eu tive na minha vida.

Conclusão: se você quer evoluir, se jogue para fora da zona de conforto. É como fazer o exército. Na hora você reclama, mas depois, quando olha pra trás, não se arrepende.

2 comentários em “Zona de desconforto – Uma aventura na Venezuela”

  1. Parabéns ,Marcelo pelo seu blog.Não sabia que vc escrevia tão bem!Pode até lançar um livro.Tenho certeza que fará bastante sucesso. Bjs , Tia Célia

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