A importância da leitura (e dos idiomas)

Sempre fui um péssimo aluno. Fiz o colegial em 4 colégios diferentes até até terminar no Objetivo, que na época era um dos únicos onde era impossível “tomar pau”. Bastava ir à escola para passar de ano.

Meu pai era um leitor voraz. Lia muito. Era muito tímido, não era de falar muito. E eu gostava de ficar com ele. Então comecei a adquirir o hábito da leitura. No café da manhã ele lia economia, eu lia esporte. E então trocávamos, e eu lia economia. Com 12/13 anos. No começo eu não entendia muito bem as coisas que lia mas com o tempo fui percebendo que as notícias do jornal tem uma certa narrativa, uma continuidade. E você acaba ficando na expectativa do que acontecerá no dia seguinte. Me habituei tanto com esta rotina de ler jornal que quando ia passar as férias no Recife com os pais do meu melhor amigo e um monte de moleques, e eu ia todo dia de manhã comprar o jornal na banca. E tomava o café lendo o jornal, nas férias, com 13 anos. Juro que eu não era um Nerd, muito pelo contrário. Mas a galera me zoava muito.

Era o jornal local, não era como hoje, que o Estadão e a Folha chegam no Brasil inteiro na mesma hora. Era o Diário de Pernambuco. E eu me interessava pela notícias locais, pela narrativa. “Pegou fogo na favela de Brasilia Teimosa, 50 famílias ficaram sem casa”. No dia seguinte tinha a versão dos bombeiros, no outro dia os moradores acusavam a prefeitura, no outro o jornal entrevistava o governador, que culpava o governo federal, e assim a estória ia se desenrolando. Eu estava de férias, mas ligado na estória, sabia todos os detalhes, discutia com o barraqueiro na praia, com o garçon do restaurante, com o cara da banca. Não conseguia imaginar minha vida sem ler o jornal de manhã. Meu pai passou isso para mim. Sem me pedir, sem falar uma palavra. Era meio por osmose.

A noite, depois do Jantar, meu pai lia livros. Todas as noites. Ele não curtia TV. E todos os livros eram em inglês, idioma que ele dominava. Não era uma leitura profunda, ele lia conteúdo “mamão com açúcar”. Sidney Sheldon, David Baldacci, aqueles romances bem light, para ir dando sono. Eu frequentava o Cel Lep, um curso de inglês bom, mas bem basicão. E ali, sentado ao lado do meu pai, ia folheando os livros que ele já havia lido e ia me passando. No começo eu lia devagar, entendia só a metade, mas me dedicava aquilo todas as noites, depois do jantar, antes de sair para encontrar os amigos. Com o tempo eu ia entendendo mais, aumentando a velocidade, até que quando eu percebi, estava lendo livros de 800 páginas, em inglês, numa batida só. 13/14 anos. E foi assim por anos. No começo ele ia dormir e eu ia para a rua brincar com os amigos. Mais tarde ele ia dormir e eu ia para a balada com os amigos já crescidos.

Eu agradeço meu pai todos os dias – hoje em pensamento – porque a leitura me propiciou absolutamente tudo o que eu consegui na vida.

Até a escolha da minha Profissão foi determinada por um livro, O Hotel, de Artur Hailey. Imagine que em 1975/76 não existia nenhuma escola de hotelaria no Brasil. As escolhas de profissão eram restritas. Engenheiro, administrador, advogado ou médico. E eu descobri, no livro, o Peter McDermmot, gerente geral de um hotelzaço em New Orleans que tinha se formado em hotelaria na Universidade de Cornell. O hotel estava cheio de problemas financeiros e em vias de ser adquirido por uma rede hoteleira. Então o Peter tinha que salvar o hotel de uma aquisição forçada e ao mesmo tempo lidar com os problemas mais bizarros, que acontecem no dia a dia de um hotel, envolvendo inclusive o romance dele com uma funcionária. Eu descobri um mundo do qual eu nunca tinha ouvido falar. Aquele hotel era uma loucura, acontecia de tudo ali. Decidi minha profissão naquele momento, em um dos livros do meu pai.

E fui parar numa faculdade de hotelaria na Suiça. Suíça francesa, mas o idioma da escola era o inglês. E o meu inglês era muito bom, por conta da leitura dos livros. Fiz os testes e passei. Me formei no segundo grau no Objetivo depois de passar por 4 escolas e fui cursar a melhor escola de hotelaria do mundo, na Suiça.

Quando minha primeira filha nasceu o nome dela saiu do livro que nós, eu e minha mulher à época, estávamos lendo. O livro é tão bom que líamos juntos. O título é “The clan of the cave bear” (título em Português: Ayla a garota das cavernas). Ayla era uma garota alta, loira, ereta, de 5 anos de idade, cuja tribo foi soterrada por um terremoto e ela ficou sozinha no mundo. Acabou sendo criada por uma tribo de neandertais baixinhos, escuros, peludos e curvados que representavam a espécie humana de uma outra era. A autora, Jean Auel, fez conviver estas 2 espécies na mesma estória, espécies que certamente nunca conviveram na mesma era. O livro é magnífico, ela descreve em detalhes como era a vida de uma tribo nomade na pré-história. Antes do ferro. Você imagina como era cozinhar uma batata numa cumbuca de madeira? Pois é, eu aprendi lendo esse livro. E a personagem principal é Ayla, o nome de uma de minhas filhas.

Depois do inglês aprendi o francês, o espanhol e o italiano, sempre da mesma maneira. Fazia um curso para pegar o básico e mergulhava na leitura de romances nestes idiomas. E os idiomas foram me abrindo portas.

O espanhol me levou primeiro para a fronteira da Argentina com o Chile, para inaugurar um hotel no Valle de Las Lenas, uma estação de esqui. E depois para a Venezuela, para assumir a direção do primeiro hotel que foi privatizado pelo governo Venezuelano. Esta é uma estória bem interessante e será contada no próximo post.

Conclusão: a leitura nos enriquece e nos transforma. Warren Buffet, um dos caras mais ricos do mundo, passa 80% do seu tempo lendo, sentado na sua sala. Bill Gates lê pelo menos 1 livro por semana. Mark Zuckerberg se lançou o desafio de ler pelo menos 26 livros por ano. Steve Jobs era um leitor voraz. Alguma lição podemos tirar.

Além disso a leitura é o veículo mais óbvio para o aprendizado dos idiomas, que nos leva à descoberta de novos lugares, de novas pessoas, o que nos faz sair de nossa zona de conforto. A leitura nos propicia aprendizado e evolução.

O que seria de nós sem os livros?

2 comentários em “A importância da leitura (e dos idiomas)”

  1. Parabens meu Primo Marcelo Politi!!!! Vc escreve muito bem!!! Tento passar tambem aos meus filhos a importancia da leitura e a cultura adquirida com esse habito!!
    Grande abraco do seu Primo Paulo B. Politi!!!

    Curtido por 1 pessoa

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